terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Resquícios da Europa abaixo da linha do Equador


Consegui uma posição para escrever. Sentado à beira da cama, apoiando o computador em um banco de plástico e com o ventilador em minha direção deixo o pensamento fluir. Os braços ainda doem e os dedos formigam, sensações de uma infrutífera tentativa de escrever deitado, mas a vontade de escrever ainda é maior. Deixo me levar pelo cheiro de humidade do apartamento que ficou fechado por muito tempo. Ainda me recordo das palavras da corretora de imóveis dizendo como a dona havia ficado “re-feliz” com a locação do imóvel. O cheiro de humidade misturado com incenso que comprei na semana passada fazem as idéias vagarem.

Buenos Aires nessa época do ano está lotada por brasileiros de todas as partes, “acentos” de nordestinos, cariocas, paulistanos, paulistanos e sulistas.

Nessa época os porteños não se encontram por aqui, lotam as praias de Punta del Este e Mar del Plata. É comum ver diversas lojas não turísticas fechadas nessa época do ano ... assim como no Brasil, Buenos Aires “empieza después” do Carnaval .... que por sinal é uma tentativa frustrada de tentar copiar o Carnaval do Rio de Janeiro.

Certa vez tomei um taxi e o chofer me dizia que Buenos Aires estava tomada por latinos de todas as partes, chilenos, peruanos, paraguaios e tantos outros. Dizia ainda que a inflação estava galopante e que por todos os lados existia mendicância pelas ruas, pessoas pedindo dinheiro e gente drogada ... dizia também que a violência tinha chegado com uma tal brutalidade que em alguns lugares já era impossível caminhar à noite. Deixei a conversa fluir sem prestar muito atenção àquele taxista, que definitivamente não tinha cara de Argentino. Desci do taxi e me pus a pensar sobre o assunto. No dia seguinte caminhando pela rua de casa, moro no cruzamento da Talcahuano com Av. Sante Fé, percebi uma coisa “estraña”, que os porteños não tem cara de latinos .... aqui as pessoas tem “pelos” loiros, “ojos” azuis e são brancas de “piel” ... e não se encontram negros nas ruas.

Isso ficou na minha cabeça.

Outro dia, voltava de taxi do Parque Holanda, um parque muito bonito que fica situado no nobre bairro de Palermo, e me peguei lembrando das pessoas no parque, deitadas em toalhas brancas, fazendo piquenique, lendo livros e se recostando à sombra de grandes árvores ou simplesmente dourando sua “piel blanca” como algodão no sol ... foi quando então novamente um taxista interrompeu este meu momento sublime e com o seu belo “acento” porteño me perguntou “de donde sos”? Eu prontamente informei a minha nacionalidade brasileira e o senhor começou a discorrer elogios ao ex-presidente Lula e lembrar do clamor popular de quando o nosso querido representante tupiniquim esteve em terras de Evita. Ele falava com entusiasmo sobre a chegada no aeroporto e da enorme quantidade de pessoas que se deslocaram para vê-lo. Chegou a comparar até às triunfantes aparições do nobre filho porteño El gordicho Maradona. Ao nos acercamos de casa e indicando o fim do trajeto, o simpático senhor comentou com uma certa nostalgia de que para os argentinos o Lula parece argentino e que os eleitores clamam por um presidente como ele.

Imaginem: “Lula, el obrero del pueblo, nuestro presidente”. Ele se juntaria às massas e encabeçaria às enormes manifestações populares, que diga-se de passagem acontecem todos os dias por aqui. Traria enfim novamente os tempos áureos à pátria de Carlos Gardel (que por sinal é uruguaio naturalizado argentino).

Mas que país é esse?

Esse é um país de olhos azuis, de cabelos loiros, de Evita, de Cristina Kirchner ... esse sim é o DNA do povo porteño ... não é nada mais do que os resquícios da Europa abaixo da linha do Equador.

Apesar do presidente de um país pequeno e sem muita importância, um tal de “não sei o que Obama”, ter dito ao nosso ilustríssimo ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva: “you are the man” ... aqui em BsAs um cidadão baixinho, sem um dedo e com voz rouca, seria nobremente indicado pela aristocracia do olho azul ao honroso cargo de taxista.

7 comentários:

  1. Luciano, venho acompanhando há pouco tempo seu blog e queria te parabenizar pelo belo post. Concordo com as tuas palavras. Não se encontram negros em Buenos Aires (em função da colonização?), no entanto, manifestações e elogios ao Lula sempre são ditas. Acho que temos muito que aprender com os argentinos... a começar pelo hábito de leitura que eles tem!! Hheeheh

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    1. Oi Cristine, que bom que tenha gostado deste post. Tenho tentando passar de forma mais fiel possível, todas as sensações que tenho vivido nestes últimos 2 meses de estrada.
      Tenho percebido uma distância enorme que temos em relação aos uruguaios e argentinos, tanto em relação à politização quanto em relação ao hábito de ler. Sei que a única explicação para isso é o sucateamento da educação no Brasil.
      Muito obrigado pelas palavras e vamos nos falando.
      bj
      Luciano

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    2. Oi Luciano!
      É a Fê de Floripa do curso de espanhol.
      Só queria deixar registrado aqui que estou curtindo muito o teu blog e que me emocionei muito com a história de Londres.. :)
      Bom te conhecer viu!
      Beijos e boa sorte nessa viagem alucinante e alucinada!

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    3. Oi Fê,
      Que legal que vc gostou. É, a história de Londres foi bonita mesmo, guardo com carinho essa fase da minha vida (mas vida nova e bola pra frente).
      Gostei muito de te conhecer tb, vamos agitar umas cervejas com a galera da escola nessa próxima semana?
      Gde Beijo
      Luciano

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  2. Boa Noite Luciano!
    Lembra de mim? Edson Bertolini de São Paulo!
    Estivemos em Punta Del Este e nos conhece-mos, na praia da "Mão" Tomamos varias caipirosca vendo as meninas dançarem na praia rsrsrsrs. Por onde andas?
    Forte abraço e desejo uma excelente trip para voce.
    Abraços
    Edson Bertolini
    msn/email: ecb_145@hotmail.com

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    1. Fala meu velho ... lógico que me lembro, os malucos de Bragança kkkk.
      E como vcs estão?
      Estou morando em Buenos Aires há 2 meses, mas já estou me mandando no mês que vem.
      O próximo lugar é a Patagonia e depois o Chile.
      Edson, um grande abraço pra vc e praqueles malucos tb ... heheh e vamos nos falando, quem sabe a gente não se tromba por ai pra tomar mais algumas.
      Abraço
      Luciano

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  3. Olá Luciano,
    Estou acompanhando seu blog porque em maio eu e mais dois amigos começaremos uma aventura parecida com a sua. Iniciaremos em 15 de maio (programado) pela Argentina (BA) e pretendemos descer até a Patagônia e, depois, subir pela costa do Pacífico.
    Estou achando muito interessante os pontos que vc vem postando em relação a sua pretenção nessa aventura e, também, sobre a Argentina, mas particularmente, Buenos Aires.
    Perabéns!!! Estarei te acompanhando e, se cruzarmos seu caminho, proponho sentarmos para tomar uma cervejinha e conversarmos sobre a viagem.
    Boa sorte!

    Vital Vieira

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